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Autor: Pássaro
Distante

Com que olhos conquistaste
Aqueles que bem te queriam,
Os que, um dia, desnudaste
E, em ti, se perderiam?
Com que olhos me beijaste
Na nossa primeira vez?
E que troféu hasteaste
Ao tirares-me os três?
Com que olhos te apaixonaste
Naquele vão de escada?
Onde nos penduraste
Numa louca madrugada.
Com que olhos suportaste
Aquilo que em mim viste:
A promessa a «meia haste»
Em que um dia te iludiste?
Com que olhos humilhaste
O íntimo dos olhos meus?
E que mágoa recordaste
Nesta hora do adeus?
Com que olhos debochaste
Na minha melancolia?
Que presente fulminaste
Sem qualquer «Ordem do Dia»?
Com que olhos nos manchaste
Em projectos de futuro,
Acenados, «quanto baste»,
Até à hora do apuro.
Com que olhos inundaste
As lágrimas, demoradas,
Dum peito que te fartaste?
E, do teu, mal projectadas.
Com que olhos iluminaste
Aqueles que te queriam
E que, por fim, condenaste
Só porque nada diziam.
Com que olhos me feriste
Com a tua lucidez?
Satisfeita? Porque atingiste
A minha insensatez?
Com que olhos bloqueaste
Essa estrada da esperança?
Em que curva torneaste,
Com desdém, a nossa herança?
Com que olhos impediste
A nossa felicidade?
Quando tudo ficou triste
E nada sobrou, na verdade...
Com que olhos marcaste
O prenúncio de nós dois?
E do ser que educaste
Contradizendo-me depois?
Com que olhos me sonhaste
Na noite do desencanto?
Quando, dormindo, acordaste
E te expulsaste do manto.
Com que olhos me deixaste?
Com mágoa e ressentimento?
Perguntas se provocaste
Todo este meu tormento?
E com que olhos buscaste,
Nas palavras que não leste,
As idéias que compraste,
Com que não te defendeste?

E-mail do
autor:
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