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Autor: Pássaro Distante
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I
Lua que definha o próprio Sol
Invadindo frágil peito com feitiço:
Entrelaça o corpo à alma com anzol,
Sugando este meu ser tão movediço.
Subverte a virgem luz do Sol nascente
Com alvíssaras, promessas e ilusões,
Seduzindo-o até ficar dormente
De prazer, ora rendido às tentações.
Lua ingrata excluída desta redoma
Ou antro, azul, de pouca humanidade
Onde quem não é amigo nos engoma
Ou nos mata, com total impunidade.
Linda Lua que «só espalha sofrimento»
Como cantava Vinícius de Moraes:
A ausência é a saudade em movimento;
Os soluços são mel nas cordas vocais. |
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II
Lua cheia cintilante de projectos,
E quimeras subtilmente abrilhantadas
Pelas almas aquecidas com afectos
Trocados em tão densas madrugadas.
Meia-Lua que encobre a frustração
Pois sonhara ser estrela ou belo astro.
Infrutífera mostrou-se tal pretensão.
Ca stigaram-na. Ao invés tornou-se emplastro.
É vê-la no seu quarto, minguante:
Negrume enraivecido na calada,
Vingando-se num Pássaro Distante
Perdido na esquina da alvorada.
E no seu quarto crescente de inveja
Inebria-nos com aquele brilho hostil,
Confundindo a lucidez, que lhe boceja
E ilude as paixões de tom febril. |
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III
Lua que nos mostra o seu sabor:
Leite magro com aroma adocicado,
Aditivo que, num ápice, é rancor
Ou inveja em licor adulterado.
Mulher estéril que se mostra prepotente,
Que confunde o meu amor com servidão
E que exibe o seu veneno, impaciente,
Quando eu lhe faço frente e digo: não!
Arredada fatalmente do planeta,
Como Eva, expulsa do Paraíso,
Irredutível aos avisos do profeta:
Não mudando quando mais era preciso.
Lua triste por quem sinto alguma pena
Neste meu jeito de ser amolecido
Pela vida, que nunca quis ser serena
E maltrata q uem por ela é vencido. |
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IV
Isolada na distância gravitante,
Qual presídio de suprema segurança,
O teu escuro é lagoa itinerante
Onde afogo cada sonho na lembrança.
Nunca eu te ofereci fala concreta
Como a que ora te dirijo nesta forma,
Impedido duma ligação directa
Ao teu corpo, cujo brilho me deforma.
Teu castigo consta do itinerário
Semelhante às travessias do deserto:
Queres o Sol ao pé e a qualquer horário;
Eu limito-me a querer o Mar por perto.
Não podes alucinar o meu semblante
Tal como a luz duma estrela excitada
Que, num ímpeto deveras empolgante,
Se revê neste meu porto, acarinhada. |
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V
Fica entre essas tais constelações,
E bebe o brilho solar de tom nocturno,
Pois de nada valerão as orações
Que te tornem num dos anéis de Saturno.
Brilho que, para mim, é mero foco
Ténue, qual clarão dum candeeiro.
É que: entre um quinto ou sexto copo
Pouco serve a luz do travesseiro.
Lua cheia de vazio, ou sem conversa,
És reguengo de diversos meteoros.
Antes foras tal e qual tapete persa
Mas agora tens buracos nos teus poros.
O teu colo fora albergue de astronauta
Quando os sonhos projectavam foguetões
Iludidos por uma guerra incauta...
É que as estrelas não protegem os vilões! |
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