PORQUE O MUNDO NOS UNE
E NINGUÉM QUER SABER DISSO!



Autor: Pássaro Distante

(Dedicado a «Julinho», «Imperador» de Belém do Pará, com carinho)




Se Julinho é triste
Por «não ter» nem pai nem mãe,
Que encaminhe essa tristeza
Para a dor de um violão.
Como eu dirijo a minha
(Que ainda persiste)
Para esta escrita, proscrita,
No recanto desta mesa,
Como forma de compensação.

Se o Julinho é rebelde
E um pouco revoltado
Que descubra a harmonia
E a desarmonia, também,
Nas cordas ou num teclado
Tocando, ou ouvindo alguém.
Ou, se ninguém ouvir, grite: «Help!»

Eduque-se pela música
Santuário da rebeldia,
A liberdade absoluta
Para melhorar seu dia-a-dia.

Dediquem-lhe todo o carinho,
Com firmeza e autoridade,
Para que ele saiba o caminho
Ao chegar à puberdade.


Mostrem-lhe os sons de Jobim,
De Vinícius e Toquinho,
Assim como a arte
De Francisco Buarque
E essas vozes de cetim,
Que me animam um pouquinho.
Sem ordem de preferência,
Que me perdoem alguma ausência:

Miúcha, ah! Meu âmago se repuxa!...
Gal Costa, ao vivo (en)cantando Jobim...
Paula Morelenbaum,
(quando volta ao Funchal para mais um?)
Acompanhando o Mestre em «Passarim»
E no duplo álbum «Inédito»
Que eu (não) comprei a crédito!

Zizi Possi, Ó «Pedaço de Mim»¿
Que me deixa assim:
«Sentimental, eu sou...»
Largue o canto italiano
E venha «nascer de novo»!
«Não vou»?!
Você rejeita o seu lusitano
E honrado Povo?

Maria Bethânia, chorando Noel Rosa...
E cantando em prosa
Ou em verso
(«Nosso amor que eu não mereço
E que teve o seu começo
Numa festa de São João,
Morre hoje sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar, nem violão») ,
Ou, quando converso,
Com a, de Pixinguinha, «Rosa»,
Na voz de Marisa Monte,
E como é tão gostosa,
Mas em falta com a Bossanova:
«Pecado é lhe deixar de molho»...
Viu? Marisa, Eu estou de olho!
Veja se aprova!



Adriana Calcanhotto,
Com seu jeitinho maroto...

Elis Regina
(E, agora, sua menina)
E Nara Leão,
Que entre nós já não estão,
Mas habitam no meu coração...

Alcione, há pouco tempo na Madeira...
Num palco com a poeira
Do Chão da Lagoa
Em laranja festa
Em tom «Marron», que ecoa
Na Laurissilva floresta,
Património que a Humanidade protesta...

Marília Medalha,
Maria Creuza:
Deus nos valha!
Onde estão vocês agora?
Pergunta-vos um bandolim que chora...
Como quem faz prece a Deusa...

Bebel Gilberto,
Tão longe e tão perto...
No meu pranto aberto,
Por certo.
Que um dia quis
Ser «Mais Feliz»!

Nana Caymmi, herdeira de Dorival:
«É Doce Morrer no Mar»...
«Junte tudo o que é seu»...
Em Brasil ou Portugal...
Em declínio ou apogeu...
Com tanto amor para dar...

Leila Pinheiro, que te conheci pessoalmente,
Com a Graça de Deus e não só...
E nossas fotos? Francamente...
Perdidas? Ganhando pó?

«Amor é Bossanova, Sexo é Carnaval»
Disse, de «Saia Justa»
E de forma vetusta,
No seu novo musical.
Mas, Rita Lee,
Que «Mania de Você»:
O meu Brasil é aqui!
Ou será que ninguém vê?




Julinho, anjinho:
Dê um saltinho
No Atlântico,
Para belezas que não desconheça,
Aquelas cujo cântico
Recheia a minha cabeça:


Cesária Évora, em Paris ou na Madeira,
«Bem te vi», com meu Amor, na vida inteira...
Dulce Pontes, do rio que sorriu,
Para não chorar,
À beira-mar...
Com dedinho de Daniela (Mercury),
De cravo e canela:
«Para quem não sabe, sorrio
A cantar...»
Em «Feijão com Arroz»
Que não me indispôs.

Valha-me Deus!
«Madrede us»,
Teresa Salgueiro,
Voz do Mundo inteiro,
Espírito anti-guerreiro
Que me faz ordeiro.

Amália Rodrigues,
Na dor de cada «Gaivota»
Deste bandolim que toca
(Seu fado, não duvides)
E voa...
Como Eugénia Melo e Castro,
Geninha, que por esses lados soa...
Na superfície ou no poço...
Que o diga Ney Matogrosso!

Sara Tavares,
Para, quem sabe, amares?
Percorridos os mares
Da tua juventude
Que se ilude
Com a plenitude.
 



Lula Pena,
Diva de voz grave e de mão serena,
Ao violão:
Eis a questão
De Né Ladeiras
No seu «Sonho Azul»,
Sem fronteiras...
«Ao sul»...
«À procura do meu Norte».
E, tal como em «Noites do Norte»,
Lembre-se de Caetano
Trovador do coração.
Ah! Há pouco, por puro engano,
«Falando de Amor» e Bossanova
Esqueci Baden Powell e seu violão
De eficácia a toda a prova.

E também de Carlos Lyra,
Que «flechas de amor» a tira:
«Sabe você o que é o Amor?»
«Não sabe? Eu sei!»
«Você já chorou de dor?»
«Pois eu chorei.»
E a «Marcha de 4.ª feira de cinzas»?
«Para andar de madrugada
Com a amada,
Pela mão»
Em «Suburbano Coração».
«Para que os olhos do meu bem
não olhem mais ninguém».




E Julinho: seja esperto!
Preste bem atenção
E tenha o espírito aberto
Para o som de João Gilberto:
Sua «Voz E Violão»!


E, naquele jeitinho manhoso,
Se quiser ficar mais envolvente
Ouça um pouco de Rui Veloso,
A quem ninguém fica indiferente.
Mas escute primeiro
A voz de Nuno Guerreiro
Derramando recados
Na «Ala dos Namorados»,
Amando, «assim perdidamente»,
Florbela Espanca... fatalmente.

Misture um pouco de salsa
Para ficar menos profundo.
Arregace a sua calça
E ouça Compay Segundo.

De Cuba mais para Norte,
Chegando ao Jazz da América.
Você está perto, é, tem sorte:
Não vive em Ilha periférica!

Se estiver em qualquer «Town»
Ouça o baixo de Ray Brown.
Alugue carro na agência «Avis»
E viaje ao som de Miles Davis.

E para quando a saudade aperte:
Benny Goodman no clarinete,
Louis Armstrong, voz e trompete
Duke Ellington, ao piano
E, sem qualquer engano,
Oscar Peterson também,
Stan Getx, de «sax» profano,
Para quem não há ninguém,
Nem Gilberto, nem Astrud,
A quem ele se agarrou, qual grude...



Mas não se esqueça das divas:
Ella Fitzgerald, cantando Jobim...
Sara Vaughan, que canta para mim...
(«Prenda Minha»? ou «Sorte» de Gal?)
Billie Holiday e sua história pessoal
Que mete dó, até em Portugal...
Onde esteve Diana Krall
Que aplaudi no «Music Hall».
Peggy Lee: «you turned the table on me»...
Cybill Sheperd, quem diria?
«Modelo e Detective»
Que canta como um rouxinol!
Em trabalho que obtive
Numa linda tarde de sol
De Lis boa que sorria...



Depois de fazer isso tudo,
Descrito de forma tácita,
Assim que acabar o Entrudo
Dedique-se à música clássica.
Quem sabe não te encontro um dia
E estudamos em parceria?
Aí mesmo ou nesta Ilha,
Onde acompanho minha filha
Da melhor forma que posso e sei
Para não dizerem que falhei.

Sem «coqueiro
Que dá coco»
E com roteiro
Que me põe louco;
Com amizade,
Quase paterna
Mas nada hesitante,
Com lealdade
E emoção fraterna
Dum Pássaro Distante,


E-mail do autor: passarodistante@hotmail.com


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